Fiquei muito feliz que a Bélgica tenha sido o primeiro país sorteado para a volta ao mundo em 198 Livros. É muito bom poder começar por um país que eu já conheço pessoalmente, pois ler um livro da Bélgica vai ser como se eu pudesse estar viajando pra lá de novo. Já tive o prazer de visitar a encantadora cidadezinha de Bruges algumas vezes, fui a Bruxelas com minha família uns anos atrás e mais recentemente estive também na pitoresca cidadezinha de Dinant.
Porém, apesar de já ter viajado para a Bélgica três vezes e ter me encantado pelo país, quando parei pra pensar, notei que pouco sabia sobre a cultura e principalmente sobre a história do país. Posso estar enganada, mas imagino que a maioria dos livros que for ler de países europeus falarão sobre as guerras que infelizmente deixaram cicatrizes profundas na sua história e também na de seu povo.
O premiado livro Guerra e Terebintina do autor belga Stefan Hertmans é o primeiro livro escolhido para esse projeto, seguindo a dica de leitura da Camila Navarro. O livro me pareceu se encaixar bem no critério estabelecido para a escolha dos livros, ou seja, um livro um pouco mais recente e que fale sobre aspectos culturais ou históricos do país. Esse é um romance sobre memórias, arte, guerra e amor.

Essa obra de Stefan foi inspirada nos cadernos de anotações que seu avô, Urbain Martien, lhe entregou um pouco antes de sua morte em 1981. Por muitos anos o autor deixou esses cadernos de lado por achar que ainda não estava preparado para se dedicar às memórias da vida de seu avô. No entanto, próximo do centenário da 1ª Guerra Mundial (2014-2018), Stefan decidiu ler esses cadernos e escrever um livro baseado nos relatos de seu avô como uma forma de homenagem.
O livro é dividido em 3 partes. A primeira delas descreve a infância de seu avô como um garoto pobre, de família católica, que mora na cidade de Ghent na Bélgica no início do século 20. O avô expõe sua admiração pelo casamento de seu pai, que, apesar da saúde debilitada, era um pintor de murais de igreja e de sua mãe, que tinha uma beleza única e um jeito de andar bem confiante.
Essa primeira parte do livro foi um pouco confusa para mim, pois o autor mistura épocas e histórias. Às vezes está falando do seu avô, depois começa a falar do bisavô, e depois conta detalhes de algumas de suas descobertas anos depois da morte de seu avô. Confesso que tive um pouco de dificuldade pra entender quem é quem e pegar o ritmo da leitura. Mas depois que peguei o ritmo, eu embalei sem parar. Até me emocionei algumas vezes!
A segunda parte do livro é narrada em primeira pessoa, que nesse caso é o seu avô. Logo após tornar-se adulto, ele é convocado a servir o exército da Bélgica e lutar na 1ª Guerra Mundial. Ele expõe todos os mais minuciosos detalhes do dia a dia da vida dos que lutaram e perderam suas vidas para defender seus países.
A guerra destruiu o humanismo, e no lugar dele entrou um vazio moral intenso, difícil de preencher com novos ideais, já que ficou evidente o quanto os antigos nos haviam levado pelo caminho errado. A nova política que surgia passou a ser movida pela raiva, pelo ressentimento, pelo rancor e pelo desejo de vingança, com um potencial de destruição ainda maior.”
Eu diria que nunca tive uma perspectiva tão próxima da realidade do que se passa na cabeça de um soldado de guerra. Nenhum filme que já vi na vida me fez ter a noção real das misérias causadas pela guerra.
A terceira parte do livro fala um pouco mais da vida pessoal do avô e de como foi a vida dele após a guerra. O autor volta a aparecer no livro contando um pouco das memórias que tem junto de seu avô quando era ainda pequeno.
Desse modo, devo dizer que esse livro da Bélgica me tocou muito, principalmente pela conduta e postura do avô do autor face às adversidades da vida. Perdeu o pai ainda quando era criança, lutou na guerra sem se esquecer de todos os princípios morais e perdeu precocemente o amor de sua vida. Mesmo assim, esse homem encontra em suas pinturas uma forma de expressar tudo o que a vida lhe deu e lhe tirou ao longo dos anos.
Guerra e Terebintina foi publicado originalmente em neerlandês, em 2013. No Brasil, o livro está disponível em português na Estante Virtual. No Reino Unido, foi publicado com o título War and Turpentine e está disponível em inglês na Amazon.
Saiba mais sobre o Projeto 198 Livros.

Quem lê sabe mais!!! Que bom Nádia ver que você está sempre investindo cada vez mais em conhecimento e cultura e um bom livro faz isso, entender um pouco mais da alma e do coração dos diferentes povos e nações. Sempre parabéns pra você.
Essa maneira de conhecer mais um pouquinho de cada país é muito incrível. Eu realmente me sinto viajando pelo país a cada página do livro que eu viro. ♥ Sou muito feliz por ter começado um projeto tão maravilhoso quanto esse na minha vida, que só tem a agregar!
Curiosidades em bons caminhos, nos levam longe!! Beijão Nádia linda.