198 Livros, Blog

Como surgiu o projeto ‘Volta ao Mundo em 198 Livros’?

No post de hoje eu vou explicar como essa ideia maluca de dar a volta ao mundo em 198 livros surgiu na minha cabeça. Se você chegou até aqui de paraquedas e não sabe do que eu estou falando, acontece que recentemente decidi que vou dar a volta ao mundo através dos livros.

Embarquei em uma jornada literária onde vou ler 1 livro de cada país do mundo, ou seja, vou ler 198 livros, de 198 autores, de 198 países! Vai ser uma volta ao mundo (tecnicamente), porém a diferença é que vou fazer isso no conforto do sofá da minha casa mas o friozinho na barriga é o mesmo do que se eu estivesse prestes a pegar um avião.

Biblioteca Municipal de Praga (Idiom Installation)
Biblioteca Municipal de Praga

Parece loucura, eu sei; inclusive, você deve estar se perguntando se isso realmente é possível. Eu confirmo que é possível sim, pois conheço pessoas que já fizeram e até finalizaram esse mesmo projeto. Outra pergunta que você deve estar se fazendo é: quanto tempo isso vai levar? Nesse caso, a verdade é que não faço a mínima ideia, pois isso vai depender muito do meu ritmo de leitura.

Mas ao escrever esse post hoje, eu já dei início a esse projeto e caso você queira acompanhar para ver como ele vai se desenrolando ou talvez se você quiser pegar algumas ideias para criar a sua versão de uma viagem literária, aqui no blog tem uma página com os detalhes do projeto Volta ao Mundo em 198 Livros, onde listo todos os países já sorteados, os livros escolhidos, as datas que li esses livros e tem até links para as resenhas de cada um dos livros selecionados.

Mas se por um outro lado, você chegou até esse post já vindo da página do projeto literário, significa que você está aqui para descobrir como que essa ideia surgiu. Apesar dessa ideia parecer meio maluca (assim como eu), garanto que não fui eu quem a inventou. Mas no meu caso, posso dizer que embarquei nessa aventura por causa de duas grandes paixões: as viagens e os livros!

Aeroporto de Cebu, nas Filipinas
Cebu, Filipinas

Paixão Por Viagens

Minha paixão por viagens começou ainda antes de me mudar para Londres, quando eu ainda era criança, e meus pais me levavam para viajar com meus irmãos pelo Brasil na época das férias escolares. A maior parte dessas viagens era feita de carro por todo o estado de São Paulo, e algumas vezes, visitamos também outros estados. Já escrevi um post inteiro aqui no blog contando um pouco mais sobre mim, então nesse post eu vou dar uma resumida.

Essas viagens foram muito importantes para mim, pois foi com meus pais que tomei o gosto pelo desconhecido, por sempre ir em busca de Mais Um Destino. Apesar de viajar bastante com minha família quando era criança, eu não fazia ideia de que um dia eu sairia do Brasil, viajaria para outros países e conheceria o mundo. Vinda de uma família simples de classe média baixa, eu nunca imaginei que teria condições de viajar para fora do Brasil, muito menos que um dia fosse morar fora do país por tantos anos.

Na verdade, morar fora nunca foi um sonho meu. As coisas foram acontecendo na minha vida e quando me dei conta: cá estava eu, aos 20 anos de idade, morando em uma das maiores e mais incríveis cidades desse mundo: Londres ♥️

London Eye, Rio Tamisa em Londres
Londres, Inglaterra

Com o passar do tempo, o fato de morar e trabalhar em Londres me proporcionou a oportunidade de viajar para vários países da Europa. Hoje em dia ainda é fácil, mas antigamente era muito mais fácil tirar alguns poucos dias de férias, pegar um voo de uma empresa low cost e conhecer outros países da Europa. Dois fatores essenciais facilitavam as minhas viagens: o baixo custo e a proximidade dos países.

Depois de um tempo viajando para esses países próximos da Inglaterra e depois de ter adquirido experiência como viajante independente, as minhas viagens foram evoluindo, ou seja: ficando cada vez mais longas (durando semanas) e cada vez mais distantes (se estendendo para outros continentes, como a Ásia e a África).

Quanto mais eu viajava e quanto mais eu conhecia, mais eu queria viajar e conhecer! Outros países, outras pessoas, outras culturas, outras praias, outras culinárias e por aí vai. Toda vez que conheço um novo país, fico encantada e tento absorver ao máximo todos os aspectos da cultura: antes, durante e depois da viagem. Consequentemente, isso me faz querer conhecer um pouco mais da história e da realidade de cada país. E então os livros entraram na minha vida…

10 maiores conquistas - viajar o mundo
Ha Long Bay, Vietnã

Paixão Pelos Livros

Ao contrário das viagens, a paixão pelos livros não começou na minha infância. Lembro vagamente de ter lido alguns livros na adolescência, isso porque eram obrigatórios para os exames de vestibular. Sabe aqueles livros clássicos de literatura brasileira, com um vocabulário arcaico e situações que pareciam ter acontecido um milhão de anos atrás? Então, eu lembro de não ter me conectado com a leitura, não ter conseguido me concentrar e ter chegado à conclusão de que a leitura definitivamente não era pra mim.

Daí mais uma vez, Londres entra na história para virar todas as crenças que tinha sobre mim mesma de cabeça para baixo e provar que eu ainda tinha muito o que aprender. Lembro que logo no meu segundo ano morando em Londres (em 2011), uma amiga muito próxima que era francesa e advogada, me recomendou os livros de Jane Austen, considerada uma das maiores autoras britânicas de todos os tempos.

Ainda por cima, essa amiga não só sugeriu como insistiu, dizendo: que todo mundo deveria ler Jane Austen pelo menos uma vez na vida; que eu tinha que ler Jane Austen para entender um pouco mais sobre a sociedade britânica; que Jane Austen foi uma das mulheres mais a frente de seu tempo que já existiu; e mais: que enquanto eu não lesse Jane Austen, eu nunca seria uma britânica de verdade.

Essas afirmações mexeram muito com meu ego frágil de expatriada. Eu não queria ser aquela pessoa que vive na Inglaterra e não entende nada sobre a cultura britânica. Eu comentei com essa amiga que eu nem sabia falar inglês direito e ela disse: “Não se preocupe, você vai dar conta de entender”.

Depois, quando fui olhar os anos de publicação dos livros, vi que todos datavam do início do século 19. Eu imaginei que teria muita dificuldade com os termos arcaicos em inglês (se nem os em português eu entendia, imagina em inglês), mas mais uma vez ela me falou: “Não se preocupe, é mais fácil do que parece, logo depois das primeiras páginas você vai pegar o jeito”. Então eu decidi dar uma chance.

Retrato de Jane Austen pela irmã Cassandra
Retrato de Jane Austen feito por sua irmã Cassandra em 1810

Caro leitor, me apaixonei pelos livros por causa de Jane Austen. Ao concluir a leitura de ‘Orgulho e Preconceito’ (1813), o primeiro dela que li, foi como se um mundo novo se abrisse diante dos meus olhos. A experiência foi extremamente enriquecedora por inúmeras razões. E mais do que isso, a sensação maravilhosa de realização pessoal que eu senti por ter conseguido ler algo que achei que seria impossível. A leveza que veio depois do esforço e a alegria silenciosa de ter chegado até ali. O resultado foi que acabei lendo toda a obra dela de uma vez só!

O fascínio pela leitura surgiu ali, mas as leituras que vieram nos anos seguintes foram muito importantes também, pois foram elas que me fizeram adquirir o hábito da leitura. Por exemplo, alguns autores que me marcaram muito como leitora foram: Maya Angelou, eu li toda a sua autobiografia de 7 livros e, pela primeira vez na vida, entrei em contato com o ponto de vista de alguém que sofre preconceito e racismo, mas que tem uma força de viver inabalável.

Retratos de Maya Angelou em preto e branco
Maya Angelou, uma das minhas grandes referências de mulher (créditos da imagem aqui)

Já os livros do médico brasileiro Drauzio Varella me colocaram em contato pela primeira vez com a realidade precária do sistema carcerário brasileiro, mas em contraponto, me fizeram enxergar a humanidade nas pessoas, principalmente na conduta do médico em relação aos presos. E assim aos poucos fui descobrindo realidades diferentes da minha.

No começo eu não lia muitos romances ou ficção, eu tinha preferência por histórias reais, principalmente autobiografias. Eu queria entrar em contato com a história de vida real de outras pessoas. Eu queria entender o que leva uma pessoa a se tornar referência mundial. Como essa pessoa chega lá?

Além da maravilhosa autobiografia da Maya Angelou, outras duas autobiografias trouxeram algumas das respostas que eu estava procurando. Uma delas foi do Mahatma GandhiA História dos Meus Experimentos Com a Verdade’ (1925-1929) e a outra foi do Nelson MandelaLonga Caminhada Para a Liberdade’ (1994). A história de vida dessas pessoas que mudaram e moldaram a história da humanidade, narrada em suas próprias palavras, é sem dúvidas muito inspiradora.

Mas outro fato que me levou a gostar muito dessas duas autobiografias foi que eu pude “viajar” por dois países diferentes através dos relatos deles. Por exemplo, pela primeira vez através da leitura, eu literalmente me senti viajando de trem com Gandhi pela Índia. Gandhi fala das viagens de trem pela Índia não como simples deslocamentos, mas como experiências transformadoras. Ele descreve os trens como um microcosmo da sociedade indiana.

Enquanto isso, na autobiografia do Nelson Mandela eu pude me sentir viajando de carro pelo interior da África do Sul, como se eu estivesse dentro do carro junto dele. Diferentemente de líderes que conheciam o país apenas pelos centros urbanos, Mandela fez questão de percorrer estradas rurais, vilarejos e comunidades afastadas. Estradas longas e poeirentas, campos abertos, pequenas aldeias e áreas agrícolas surgem como pano de fundo constante. Não há exaltação da beleza natural; o que chama sua atenção é o contraste entre a vastidão da terra e a exclusão das pessoas que nela viviam.

Foi depois dessas duas leituras que a ficha caiu, ou seja, que eu me liguei que poderia usar os livros como um meio de me transportar para lugares, países e culturas diferentes da minha. Que a viagem não ia ser física, mas que a sensação de deslumbramento que sinto quando conheço um novo lugar podia ser sentida através da leitura. Isso faz sentido para você? Enfim, certo dia navegando na internet (as pessoas ainda usam esse termo?), continuando, certo dia eu me deparo com uma brasileira que decidiu dar a volta ao mundo através dos livros. Eureka!

Lendo no Regent's Park em Londres
Lendo Oblomov no Regent’s Park, em Londres

Passaporte Literário: A Descoberta do Projeto

Um dia comum, como todos os outros no trabalho, eu estava navegando na internet procurando alguma coisa interessante para passar o tempo quando me deparei com o blog Viaggiando de uma brasileira mineira chamada Camila Navarro. Como ela já viajou por diversos países, o blog tem como foco principal as suas viagens. Eu adorei a forma simples e envolvente como ela relata suas viagens. Já de início me conectei bastante com a forma dela de viajar e praticamente li o blog inteiro em poucos dias.

Lendo o blog da Camila, descobri que nós tínhamos um outro interesse em comum, os livros. Ela conta em seu blog que sempre amou viagens e livros e diz que sempre defendeu que “Ler é uma das melhores maneiras de se conhecer uma cultura diferente.” Então tem uma outra parte do blog que é dedicada às leituras que ela faz. Foi aí que eu me deparei pela primeira vez com o projeto da Camila chamado Projeto 198 Livros, criado no ano de 2013. Como o próprio nome do projeto já diz, ele consiste em dar a volta ao mundo, lendo 1 livro diferente para cada país do mundo.

A Camila teve a ideia de criar esse projeto quando descobriu um outro bem parecido, criado em 2012 pela autora britânica Ann Morgan chamado A Year of Reading the World, em português ‘Um ano lendo o mundo’. O projeto de Ann Morgan surgiu pouco antes das Olimpíadas de Londres, em 2012.

Apesar de se considerar uma leitora assídua, Ann se deu conta de que sua biblioteca pessoal reunia pouquíssimos livros de autores de outros países, sendo composta quase exclusivamente por obras publicadas por escritores de língua inglesa. Foi nesse momento que ela decidiu transformar essa descoberta em um desafio ambicioso: ler um livro de cada país do mundo. Aqui você encontra a incrível lista completa dos livros que ela leu.

Caso você queira saber como a Ann se saiu nesse projeto, assista a esse TED Talk (com tradução para o português). Vale muito a pena assistir; esse vídeo é inspirador (se o som não estiver tocando, assista indo direto para a página do vídeo).

Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros: Unindo Duas Paixões

Faço aqui uma confissão: com o tempo, nasceu em mim o sonho de conhecer todos os países do mundo. Eu não vou dizer que é impossível realizar esse sonho, mas dadas as condições financeiras e profissionais que vivo nesse momento, eu acho que está um pouco difícil de fazer isso acontecer.

Tá, eu sei que muita gente viaja pelo mundo com pouco dinheiro. Mas eu não quero viajar com orçamento sempre apertado, e outra, eu não tenho pressa. Quero poder aproveitar com calma (e condições) cada novo lugar que visito. No momento em que escrevo esse post, eu já conheci mais de 30 países, só que vai levar tempo para conhecer os outros mais de 150 que ainda faltam. Mas encontrei nos livros uma forma (acessível) de fazer esse sonho acontecer!

Então chegamos à pergunta inicial desse post: Como surgiu o projeto ‘Volta ao Mundo em 198 Livros’? Bom, eu diria que foi um processo que começou na minha infância e a paixão pelas viagens; passou pela minha fase adulta e a descoberta da paixão pelos livros; e finalizou em 2018, quando encontrei o projeto da Camila Navarro e da Ann Morgan. Sem dúvidas, esse é um dos projetos mais empolgantes que estou embarcando na minha vida!

Como diz a escritora Charlaine Harris: “Viva os livros, as férias mais baratas que você pode comprar”. É possível adquirir livros a preços baixos em bibliotecas, sebos (especialmente para livros antigos) ou em promoções, oferecendo escapadas imersivas para novos mundos sem o custo de passagens aéreas ou hotéis! Aproveito e te convido para embarcar nessa viagem comigo. 📚✈️🌎

Nostalgic Tramway em Istambul, na Turquia
Istambul, Turquia
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