198 Livros, Namíbia

LIVRO DA NAMÍBIA: The Purple Violet of Oshaantu, de Neshani Andreas

O Projeto 198 Livros ainda é a melhor maneira que encontrei de viajar para outros países e continentes quando a realidade não me permite ir pessoalmente. A sensação de sortear um novo país, escolher o livro e esperar ele chegar para começar a leitura me dá um friozinho na barriga, quase como se eu estivesse esperando a data de ir para o aeroporto pegar o avião. Dessa vez, o projeto me leva novamente para o continente africano, com uma história comovente encontrada nas páginas de um livro da Namíbia.

A Namíbia é um país de vastas dimensões territoriais localizado na região sudoeste da África, que conquistou a sua independência da África do Sul recentemente, em março de 1990. Com uma população de aproximadamente 2 milhões e meio de habitantes, é considerado um dos países menos povoados do mundo. Isso se deve por uma combinação de fatores naturais e históricos. Entre eles, o clima, que varia entre árido e desértico, e a geografia, pois grande parte do território é ocupada pelos desertos do Namibe e do Kalahari, onde a escassez de água torna difícil a ocupação humana.

Recentemente tem crescido o número de turistas e influenciadores que viajam à Namíbia principalmente para conhecer a paisagem do deserto se encontrando com o mar. Eu mesmo espero um dia ver essa paisagem com meus próprios olhos. Enquanto isso não acontece, voltemos ao projeto em que o livro funciona para mim quase como uma passagem de avião.

The Purple Violet of Oshaantu, da escritora e professora namibiana Neshani Andreas, é um livro de ficção que foi inspirado em partes na experiência da autora como professora em uma área rural no norte da Namíbia. O livro foi publicado como parte da coleção African Writers Series, da antiga editora inglesa Heinemann, tornando-se assim a primeira obra de um autor namibiano a integrar essa prestigiada série. Com isso, a obra ganhou reconhecimento internacional, se tornando um dos primeiros romances publicados após a independência da Namíbia, conquistada depois do período de ocupação sul-africana.

Livro da Namíbia, The Purple Violet of Oshaantu, Neshani Andreas
The Purple Violet of Oshaantu de Neshani Andreas

A história do livro se passa em Oshaantu, uma vila rural fictícia no norte da Namíbia, um local onde as mulheres frequentemente são deixadas sozinhas para cuidar de pequenas propriedades rurais, enquanto seus maridos trabalham em minas ou nas cidades, muitas vezes longe de casa.

Logo no começo, conhecemos as duas mulheres protagonistas dessa história: Mee Ali (a narradora) e sua melhor amiga Kauna. Mee Ali é uma mulher casada com Tate Michael há 11 anos e tem 3 filhos com ele. Algumas mulheres do vilarejo, principalmente Kauna, consideram que ela é muito sortuda no casamento porque o marido não é infiel e não bate nela.

Já Kauna é casada com Tate Shange há 14 anos e tem 5 filhos com ele. É do conhecimento de todos que Shange trai a esposa com uma mulher da região; além disso, ele é muito violento e bate nela em algumas ocasiões. Todos sabem disso, mas ninguém faz nada. A única pessoa que se preocupa e quer ajudar é a Mee Ali. Com o passar dos anos, as duas vão construindo uma amizade de cumplicidade e afeto, tanto que Mee Ali coloca o nome de uma das suas filhas Kauna, em homenagem à amiga.

Logo no começo do livro, Shange, o marido abusivo e infiel de Kauna, morre de forma inesperada. De início, Kauna não chora e não demonstra nenhum sentimento. Em seguida, ela passa a ser acusada de envenenamento pelos familiares do falecido marido. A história do livro se passa no decorrer de alguns dias, que vão desde a morte de Shange até alguns dias depois do enterro.

Enquanto os familiares do falecido marido preparam o velório, o enterro e a partilha de bens, nós vamos descobrindo algumas histórias do passado das duas mulheres protagonistas, mas principalmente de Kauna, e com isso vamos entendendo cada vez mais as suas dores, os seus medos e segredos.

Quando chegou à vila logo depois do casamento, Kauna era uma mulher tão bela que todos a chamavam de A Violeta Roxa de Oshaantu (The Purple Violet of Oshaantu). Mas com o passar dos anos e depois de tanto sofrimento, se torna uma mulher magra, infeliz e com marcas de violência pelo corpo. Tanto que quando Kauna quis ir visitar a família depois de muitos anos sem vê-los, foi impedida pelo marido. A Mee Ali sugere que ela ganhe peso para ficar com cara de esposa saudável e bem cuidada. Meses depois, fazendo o que a amiga sugeriu, ela pede autorização ao marido de novo e dessa segunda vez ela a deixa ir visitar os parentes.

“Ter um corpo mais robusto é visto como um símbolo de saúde, riqueza e de um casamento feliz, especialmente entre as mulheres.”

Uma passagem que gostei bastante de ler foi da visita de Kauna aos familiares que moram em uma outra cidade porque, além de ela ser recebida com muito carinho por todos eles, tem a descrição de várias cenas do cotidiano. Por exemplo, a mãe manda matar uma cabra para celebrar e receber a filha que quase nunca vai lá. Depois, elas vão juntas à feira da cidade onde a mãe trabalha, e aí temos a descrição da feira, da sujeira em volta, da bagunça e das conversas das pessoas que trabalham ali.

“O mercado, conhecido popularmente como Omatala, era uma grande área situada bem perto da estrada asfaltada. Era hora do rush: ônibus, táxis e carros passavam em alta velocidade, levando as pessoas para o trabalho. Mee Fennie e Kauna tiveram literalmente que correr para atravessar a rua. Os motoristas dirigiam como se fossem donos das estradas. Havia dezenas de barracas espalhadas pelo mercado, com mercadorias por toda parte. Homens e mulheres vendiam de tudo: roupas de segunda mão estendidas sobre sacos plásticos no chão ou penduradas em varas; animais vivos, verduras, legumes, frutas, vetkoekies, carne crua, carne assada e frango; bebidas alcoólicas caseiras, como kafauokatokeleomalovu e o popular tombo. O ar estava impregnado pelo cheiro de fumaça e comida. Alguns aromas eram suportáveis; outros deixavam Kauna enjoada. Havia lixo espalhado por todo lado: papéis sujos, latas vazias de refrigerante, pedaços de carne pela metade e ossos.

Algumas pessoas levavam seus animais ao mercado para serem abatidos ali mesmo. O local onde isso acontecia não era algo que qualquer cliente deveria ver. Havia esterco de vaca e de cabra por toda parte. Porcos fuçavam famintos na lama. A água de bueiros entupidos transbordava e corria pelas ruas.”

Mas, de volta à vila Oshaantu, teve uma outra passagem do livro com a qual eu cheguei a ficar emocionada. Quando Kauna toma coragem para pedir às vizinhas ajuda para fazer o okakungungu (uma prática tradicional de cooperação comunitária, na qual vizinhos e familiares se juntam para trabalhar a terra). Essas mesmas vizinhas são mulheres que se julgam, se policiam e fazem fofoca entre si. Mas no momento em que Kauna pede ajuda, o sentimento de comunidade e solidariedade se manifesta. Repara esse trecho, se não é de se emocionar? Principalmente se você for mulher:

“As mulheres compreendiam a situação de Kauna. Havia um espírito maravilhoso entre nós, um verdadeiro sentimento de irmandade. Pela primeira vez, todas as intrigas e ressentimentos foram esquecidos. Éramos novamente uma só, irmãs unidas por uma causa em comum. O sol manteve sua promessa e, lentamente, subiu ao céu, acariciando suavemente nossos ombros nus com seus belos tons de amarelo e laranja. Um novo dia. […]

Eu queria correr até aquelas mulheres, abraçar e beijar cada uma delas. Desejei que aquele espírito permanecesse para sempre entre nós. Embora esse okakungungu tenha durado apenas um dia, um sentimento de irmandade e responsabilidade coletiva nos envolveu, trazendo uma estranha e alegre sensação de união. Eu me senti conectada àquelas mulheres — minhas irmãs, mães, tias e avós. Ao nos despedirmos, olhei para elas e pensei: “Sim, meninas, vocês conseguiram novamente.”

Com essas passagens vamos descobrindo mais sobre a vida de Kauna em Oshaantu. Mas a grande questão do livro é: O que vai acontecer com ela depois da morte do marido? Ela será acusada da morte dele? Ela irá herdar algum bem depois da partilha feita pelos familiares dele? Onde ela e os filhos vão morar e como vão se sustentar?

Diferentemente de grande parte da literatura namibiana, centrada na resistência à ocupação sul-africana e ao apartheid, o romance de Neshani Andreas explora questões como os direitos das mulheres, a violência doméstica, a amizade, o casamento, o amor, a AIDS, a agricultura de subsistência, o cristianismo africano e as tradições ligadas à viuvez. E foi isso que me fez gostar muito de ler esse livro: o poder da autora de capturar e relatar de maneira sensível as histórias da vida cotidiana da Namíbia. Recomendo muito!


The Purple Violet of Oshaantu foi publicado originalmente em inglês, em 2001. O livro está disponível em inglês na Amazon.

Saiba mais sobre o Projeto 198 Livros.

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