Ásia, Camboja

Koh Rong

Se eu tinha uma certeza quando viajei para o Sudeste Asiático, era que queria conhecer o maior número de ilhas possíveis. De fato, o Camboja não é tão famoso por suas ilhas quanto a vizinha Tailândia mas achei que devia dar uma chance, quem sabe eu não descobriria um novo paraíso favorito e menos explorado pelo turismo em massa? Então estava decidido: iria visitar a ilha de Koh Rong assim que chegasse no Camboja. Durante meu mochilão conheci algumas pessoas que tinham ido até lá e apesar das recomendações serem muito boas, quase todo mundo falava a seguinte frase: “Só que tem muito rato!” E quanto rato era muito rato? Fui descobrir se era exagero ou verdade.

Long Set Beach (Praia 4km)

Quando fiz o mochilão pela Ásia, só depois de chegar em um novo destino eu decidia quanto tempo ia ficar por lá, sendo assim, um dia antes comprei a passagem de barco só de ida, na rua Serendipity Beach (rua 502) em Sihanoukville.  Comprei a passagem mais barata que tinha para ir de slow boat (mais s-l-o-w impossível) o que fez com que a viajem além de demorada fosse bem enjoativa, e olha que eu tenho estômago forte. O barco fez uma primeira parada em Koh Rong Samloem que pelo que eu vi do barco parece ser uma ilha menor e menos estruturada do que Koh Rong.

Ao chegar no terminal da praia Kaoh Touch, pediram para todos que estavam saíndo do barco se sentar no próprio restaurante da plataforma de desembarque para ouvir as “instruções” da ilha:

• evitar de atravessar pela mata para o outro lado da ilha, pois existem muitas cobras por ali e poderíamos ser picados, assim como casos que tinham acontecido recentemente (ps.: mas se a gente quisesse ir para o outro lado da ilha poderíamos pagar para ir com os barcos que saíam desse mesmo terminal);

• tomar muito cuidado onde comer e beber, que nem todos os lugares eram limpos e confiáveis (ps.: mas que podíamos comer ali despreocupados pois a comida era muito saborosa e com preço acessível);

• que em caso de diarréia ou sintomas de infecção alimentar, deveríamos esperar 3 dias pra poder ter certeza e aí sim procurar o único médico da ilha (ps.: mas que poderíamos pagar uma consulta quando quisesse pra ver esse mesmo médico que ficava localizado ali atrás do restaurante);

• que não devíamos andar pelas áreas que os cambojanos moram, pois eles gostam da sua privacidade e poderiam se sentir incomodados com a nossa presença;

• que eles tinham vagas para mochileiros que quisessem trabalhar em troca de alimentação e acomodação;

• e por fim, que a ilha só tem bangalôs de bamboo e madeira, e que ali onde estávamos era o único lugar oferecendo acomodação em construções e os únicos com ar-condicionado (ps.: e que eles ainda tinham alguns quartos disponíveis).

O cara dando as tais instruções devia ser um funcionário ou gerente do negócio todo: barco, plataforma, restaurante, bar, hotel, clínica e etc, tudo uma coisa só e um só dono. A minha primeira impressão foi que os turcos dominavam aquela ilha. Sim, tinha um cambojano aqui ou acolá, mas eles não são donos dos negócios na ilha. Eles trabalham para os estrangeiros, como esses turcos. Lógico que essas instruções tiveram um único motivo: estavam vendendo seus serviços. Cheguei a conclusão que não precisávamos ter ficado ali pra ouvir isso.

Eu não queria dormir em bangalô para não correr o risco de ter que dividir minha cama com ratos, ver ou escutar eles correndo no teto durante a noite, qualquer coisa desse tipo. No caso então peguei o quarto desse lugar, que era um prédio pequeno, com janelas e portas, tudo novinho, parecia que tinha acabado de ser construído. Deixei as malas no quarto, almocei no restaurante do hotel e já tinha a programação da tarde pronta. Caminhar pela praia Kaoh Touch até a praia Long Set (Praia 4km) voltar pra tomar um banho e jantar. No dia seguinte, pegar o barco para ir para o outro lado da ilha passar o dia na praia Sok San (Praia 7km).

A caminhada até a Praia 4km durou um pouco mais de uma hora. Fui andando bem devagar para observar os turistas, os moradores, os funcionários dos hostels, as acomodações ao longo do caminho, curtir a praia e tirar algumas fotos.

Nunca vi uma areia tão branca e tão fofinha como em Koh Rong. Já estava entrando no clima da ilha e chegando na Praia 4km fiquei mais feliz ainda. A praia de tão longa quase não conseguia enxergar aonde terminava e estava do jeito que eu mais gosto: vazia! O tom azul claro e a transparência da água do mar me deixaram encantada.

Long Set Beach (Praia 4km)

Mas foi logo mais adiante que finalmente entendi o motivo por estar tão vazia. Em primeiro lugar, não tem absolutamente nada em volta. Nenhum restaurante, nenhum hostel por perto e nenhum banheiro, acho que por isso a maioria das pessoas preferem ficar na praia Kaoh Touch, onde concentra-se a maioria dos hostels e restaurantes da ilha. E pior que isso, a praia estava cheia de lixo 🙁 fiquei muito triste ao ver essa situação. Esse lindo paraíso infelizmente estava todo poluído, e o lixo era daqueles trazido pelo mar o que te faz questionar aonde o lixo produzido na ilha está sendo dispensando? Diretamente no mar? Será que eu queria mesmo estar aqui colaborando indiretamente com tudo isso? Seria esse um dos motivos de ter tantos ratos na ilha?

Lixo espalhado na Long Set Beach (Praia 4km)

Antes do anoitecer, voltei pro quarto do hotel pra tomar um banho e ir jantar, quando abro a porta do quarto o pior me aconteceu. Dei de cara com uma ratazana gigante que tinha arrancado um pacote de bolacha de dentro da minha mochila (sim, eu disse dentro da mochila). Eu não sei quem deu o maior pulo, se foi eu ou se foi ela. Nenhuma de nós duas tinha pra onde correr, ela por falta de espaço e eu por estar paralisada. Meu sistema travou completamente porque eu tenho trauma de rato, achei que ia estar longe deles escolhendo um quarto relativamente limpo e novo no “melhor” hotel da ilha. Acabou que ela correu pro banheiro e até hoje eu não sei que fim deu aquela ratazana. Não voltei pro quarto e não consegui dormir a noite toda. Tudo que eu queria era estar o mais longe possível dali na manhã seguinte, pois todos os barcos já tinham saído aquela noite. Quando o primeiro barco deixasse a ilha no dia seguinte eu queria ser a primeira pessoa a entrar nele e desaparecer daquele lugar.

Praia Kaoh Touch à noite.

As agências que vendiam as passagens de barco já estavam quase fechando quando cheguei para comprar o barco de volta para Sihanoukville, tive muita sorte por ter sido atendida mas fui informada que todos os barcos rápidos (fast boat) do dia seguinte já estavam esgotados. A opção era mais uma vez pegar o barco devagar (slow boat) pro horário do almoço, lógico que não pensei duas vezes. Antes morrer de enjôo no barco indo embora do que ter que dormir naquela ilha mais uma noite!

Se você me perguntar: •Valeu a pena ir até lá? Claro! Pra mim valeu a pena pois conheci um lugar novo, adquiri experiências e aprendizados novos; •Se eu indico? Lógico! Você tem que ir e conhecer a ilha com seus próprios olhos, a sua experiência pode ser meio desastrosa como a minha como também pode ser completamente diferente; •Se eu voltaria? Com certeza! Apesar de tudo, Koh Rong é linda e eu ainda quero conhecer a praia Sok San (Praia 7km).

O turismo no Sudeste Asiático tem crescido em um ritmo muito acelerado o que resulta em algumas ilhas se desenvolverem sem nenhum tipo de planejamento. Eu fiquei no único hotel de concreto da ilha, mas tenho certeza que agora já devam existir tantos outros. O que eu mais espero é que os turistas e moradores tenham se conscientizado e estejam cuidando da ilha, do saneamento básico e todos os outros aspectos para que o turismo não destrua a beleza do lugar. Eu realmente espero poder voltar no futuro e encontrar a ilha em uma outra realidade do que em 2016.

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